A religião entre quatro linhas

Seu José aprendeu com o pai a ser religioso desde menino. Iam ao templo todo fim de semana (e vez em quando até às quartas ou quintas). A mãe não fazia lá muita questão de acompanhá-los; mas religiosos, pai e filho não eram de faltar às celebrações.

A religião de Seu José e seu pai não tinha nenhum Cristo ou um quadro da Santa Ceia na parede. Na verdade, naquela casa os apóstolos eram outros; ao invés de doze eram onze e metade estava agachada e a outra metade estava em pé em uma foto na entrada da sala. Sua religião estava em todos os bares, almoços de fim de semana, televisões, rádios am e happy hours: sua religião era o futebol.

Como moravam perto do “templo”, iam às celebrações religiosamente. No grupo de fiéis, seu José aprendeu a entoar todos os cânticos do Quixeramobim Esporte Clube. Aprendeu a xingar juízes e bandeirinhas tal como fossem os soldados que pregaram Cristo na cruz. Resultado: cresceu como um fiel fervoroso. Assim como em missas e cultos, dia e horário de jogo era coisa sagrada. Para Seu José, a palavra “gol” tinha o mesmo significado de “amém”.

O homem era impossível; até briga já arrumou no trabalho por futebol. Certa vez bateu boca com um gerente que, sabendo da derrota do time de seu colaborador e sabendo do fanatismo do mesmo, tirou sarro do glorioso atacante de seu time, Jesus. Não deu outra, Seu José pediu as contas. “Não trabalho com gentinha do time adversário, Lourdes. Falou mal de Jesus, eu não aguento”, disse à esposa, enquanto ela não acreditava no que ouvia.

Em dia de jogo, Dona Lourdes sempre rezava (não para o Jesus centro-avante, mas para o Cristo) pedindo pela vitória do time de coração do marido. E a explicação era simples: com vitória do Quixa, o homem tornava-se faceiro, brincalhão. Dava de assar um grande churrasco para comemorar a vitória. Agradava a esposa, levava a família para passear; até o cachorro Seu José dava de acariciar.

Em dia de jogo, Dona Lourdes sempre rezava (não para o Jesus centro-avante, mas para o Cristo) pedindo pela vitória do time de coração do marido.

Porém nas vezes em que as ferrenhas orações de Dona Lourdes de nada adiantavam e o time perdia, Seu José tornava-se murcho, introspectivo. Ficava de poucas palavras, chutava o cachorro, dormia cedo. Se seu time era desclassificado, era batata: vinha gripe forte por aí.

Até que em um dia de clássico e final de campeonato cearense, Ritinha, a filha de Seu José, surgiu com o então namorado – que tramava pedir a mão da moça em casamento. Ligeiro e já ciente da fama do futuro sogro, o rapaz esperou o jogo acabar para fazer o pedido durante o jantar.

“Mas que notícia boa; é claro que dou a mão da Ritinha pra você, rapaz. Tão abençoado em nome do Quixeramobim Esporte Clube. Vamos marcar um churrasco pra comemorar, genro”. Dona Lourdes não soube dizer se o marido estava mais feliz pela notícia da filha ou por seu time ter ganhado o campeonato cearense momentos atrás. De goleada inclusive. Achou melhor não perguntar. Tirou os pratos da mesa e observou Seu José fazendo carinho na barriga do cachorro, que abanava o rabo, porém desconfiadíssimo.

Justiça nas pequenas incompreensões

Um senhor idoso vai à lotérica. São 8h da manhã e ele é um dos primeiros da fila. Enquanto espera na outra fila, escuta algum gracejo como “velho tem o dia inteiro pra vir na lotérica mas vem cedo pra atrapalhar”. Ele olha pra trás e vê um marombeiro sorrir sem jeito.

E este marombeiro, depois de pagar as contas, vai pra sua academia. Senta-se atrás do balcão, toma seu whey e seu celular vibra. Olha o WhatsApp e dá um soco na mesa – puto da vida – quando vê que um número desconhecido lhe mandou fotos de fezes, com mosquito e tudo. “Desgraça”, fala enquanto tenta ligar no tal número para tirar satisfação. Ouve uma voz: “Este número não está disponível para realizar chamadas”.

Não muito longe dali, o mesmo senhor agora está no supermercado. Pega algumas frutas, potes de conserva, leite, papel higiênico, condimentos e vai ao caixa. “CPF na nota?” – a atendente de caixa pergunta com descaso equino. “Não, obrigado”. A atendente pega os produtos, os coloca na sacola, os joga de lado e diz “próximo”.

Esta mesma atendente, algumas horas depois vai almoçar. Após a refeição, vai ao pátio do supermercado, passa a mão na testa empapuçada de suor e acende um cigarro. Seria uma boa matar o tempo no celular, pensa. Quando entra no WhatsApp, diz “puta que o pariu” ao ver uma foto de fezes em forma de C, e começa a tossir com a fumaça que acabara de engolir. Uma amiga ao lado, temendo o pior, lhe dá uns tapas nas costas (tapas que acabaram alguns indo na cabeça, pois a jovem não parava quieta ao tossir).

Depois de pouco tempo, muita gente na cidade já tinha sido vítima das fotos de fezes. No perfil do WhatsApp do número desconhecido, uma enigmática foto de paisagem. As vítimas eram aparentemente pessoas aleatórias: uma caixa de supermercado, um bodybuilder, logo foi a vez de um médico, um telemarketing de banco, um vendedor de Hinode, um pastor, uma advogada, um pai de duas famílias e até mesmo um coach e uma cozinheira. Os cocôs eram democráticos; não escolhiam profissão, religião, idade, sexo ou classe social. E eram politicamente corretos, pois nunca foram enviados para crianças ou adolescentes.

Até que um dia, o mesmo senhor desfruta de um belo almoço na churrascaria. Termina e, satisfeito vai ao caixa passar seu cartão de débito. Mas por herança da idade, acaba esquecendo sua senha. Uma fila grande começa a surgir atrás dele; alguns resmungam, outros falam mal de idosos, até que enfim ele se lembra e passa seu cartão com sucesso. Ele sai silenciosamente.

Mal sabem que quando chegarem em suas respectivas casas, esses mal educados, um por um, vão encontrar um pote em conserva em seus quintais. Com merda dentro.

Desta vez, a justiça agiu como antigamente – independente de tecnologias. Estes pobres espíritos de porco tiveram o azar dos créditos de celular do nosso herói terem acabado. E a justiça, amigos, não é pré-paga.