Nação em Parafuso

Pela primeira vez na história, um robô será candidato à Presidência do Brasil.

E por que não? Já existem robôs em todas as camadas das empresas e da sociedade; então porque não criar um para a função mais estressante e importante de um país?

Foi o que um grupo de estudantes de Engenharia Mecânica da Unicamp fez. Depois de 3 anos de desenvolvimento secreto, os estudantes anunciaram o robô ao público em uma conferência de tecnologia, onde foi revelado seu nome e próposito:
Bonifácio. Este será o primeiro robô candidato à Presidência da República do Brasil. Assim como foi com a Urna Eletrônica, temos orgulho em dizer que o país é pioneiro mais uma vez na tecnologia à favor da democracia“.

A notícia correu o mundo. A desconfiança sobre um possível presidente robô virou assunto das trending topics. Não se sabia como, mas o peculiar candidato realmente fora homologado de verdade como candidato nas eleições presidenciais. Mas ninguém sabia ainda como ele era.

Não demorou muito para o tal robô surgir em talk shows, entrevistas, programas de rádio. O tal Bonifácio era até simpático. Era um robô com aparência totalmente humana, que não escondia o fato de ser robotizado. Tinha nome de pessoa mais velha, e isso trazia uma certa credibilidade ao público. Tinha perto de 1,80 e tinha um corpo (ou seria um sistema?) atlético. Aparentava alguém próximo aos 50. Falava 5 idiomas. Tinha em seu banco de dados conteúdo de 4 doutorados nas áreas de saúde, economia, direito e tecnologia. O candidato perfeito.

A característica que mais encantou as pessoas em Boni (o chamemos assim a partir de agora), era sua completa ironia em suas respostas de duplo sentido:

Aparentemente tenho mais parafusos que o senhor –  disse em um debate numa famosa rádio do país.
Se não me falha a memória, aliás, ela nunca falha… – disse em um fórum.
Pra um ser humano, o senhor é mais frio até do que eu; – disse para um certo candidato com um passado militar.
Por motivos óbvios, não há maior interessado do que eu em facilitar a vinda do carro elétrico para o Brasil; – disse enquanto piscava sorrindo.
Não irei me tornar mais uma peça de uma obsoleta máquina pública – disse em uma propaganda política.

Porém, certas atitudes de Bonifácio traziam desconfiança do público. Boni não fora programado para beijar crianças no colo. “O que faço agora?”, perguntou a um assessor durante um comício, deixando uma má impressão. Boni também tinha um excêntrico pigarro (poucos sabiam, mas era um ruído comum de seu funcionamento) e um vício ilógico: um cigarro elétrico que não largava de jeito algum.

Apesar de tudo, as pessoas se identificaram com Bonifácio e sua vitória era dada como certa no país.

Até que algumas semanas antes da eleição, a Polícia Federal invadiu a casa do presidenciável. Prenderam-no em pleno flagrante abraçado com duas urnas eletrônicas em sua cama.

Com sua candidatura cassada, Boni foi eliminado das eleições. O Brasil acabou perdendo seu maior potencial presidente da nação simplesmente por ele ter se apaixonado pelas urnas.  Com uma tornozeleira eletrônica em sua fíbula de titânio, assistiu à apuração dos votos no dia de eleição, cabisbaixo. E quando viu que as urnas eletrônicas ainda continuavam a ser utilizadas nesta eleição, entrou em parafuso.

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