Justiça nas pequenas incompreensões

Um senhor idoso vai à lotérica. São 8h da manhã e ele é um dos primeiros da fila. Enquanto espera na outra fila, escuta algum gracejo como “velho tem o dia inteiro pra vir na lotérica mas vem cedo pra atrapalhar”. Ele olha pra trás e vê um marombeiro sorrir sem jeito.

E este marombeiro, depois de pagar as contas, vai pra sua academia. Senta-se atrás do balcão, toma seu whey e seu celular vibra. Olha o WhatsApp e dá um soco na mesa – puto da vida – quando vê que um número desconhecido lhe mandou fotos de fezes, com mosquito e tudo. “Desgraça”, fala enquanto tenta ligar no tal número para tirar satisfação. Ouve uma voz: “Este número não está disponível para realizar chamadas”.

Não muito longe dali, o mesmo senhor agora está no supermercado. Pega algumas frutas, potes de conserva, leite, papel higiênico, condimentos e vai ao caixa. “CPF na nota?” – a atendente de caixa pergunta com descaso equino. “Não, obrigado”. A atendente pega os produtos, os coloca na sacola, os joga de lado e diz “próximo”.

Esta mesma atendente, algumas horas depois vai almoçar. Após a refeição, vai ao pátio do supermercado, passa a mão na testa empapuçada de suor e acende um cigarro. Seria uma boa matar o tempo no celular, pensa. Quando entra no WhatsApp, diz “puta que o pariu” ao ver uma foto de fezes em forma de C, e começa a tossir com a fumaça que acabara de engolir. Uma amiga ao lado, temendo o pior, lhe dá uns tapas nas costas (tapas que acabaram alguns indo na cabeça, pois a jovem não parava quieta ao tossir).

Depois de pouco tempo, muita gente na cidade já tinha sido vítima das fotos de fezes. No perfil do WhatsApp do número desconhecido, uma enigmática foto de paisagem. As vítimas eram aparentemente pessoas aleatórias: uma caixa de supermercado, um bodybuilder, logo foi a vez de um médico, um telemarketing de banco, um vendedor de Hinode, um pastor, uma advogada, um pai de duas famílias e até mesmo um coach e uma cozinheira. Os cocôs eram democráticos; não escolhiam profissão, religião, idade, sexo ou classe social. E eram politicamente corretos, pois nunca foram enviados para crianças ou adolescentes.

Até que um dia, o mesmo senhor desfruta de um belo almoço na churrascaria. Termina e, satisfeito vai ao caixa passar seu cartão de débito. Mas por herança da idade, acaba esquecendo sua senha. Uma fila grande começa a surgir atrás dele; alguns resmungam, outros falam mal de idosos, até que enfim ele se lembra e passa seu cartão com sucesso. Ele sai silenciosamente.

Mal sabem que quando chegarem em suas respectivas casas, esses mal educados, um por um, vão encontrar um pote em conserva em seus quintais. Com merda dentro.

Desta vez, a justiça agiu como antigamente – independente de tecnologias. Estes pobres espíritos de porco tiveram o azar dos créditos de celular do nosso herói terem acabado. E a justiça, amigos, não é pré-paga.

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