A visita

Enquanto assistia à TV do sofá, Pedro viu algo estranho indo pra cozinha: uma cauda. Saiu atrás para ver o que era e não encontrou nada; somente viu Malu, sua esposa, preparando o jantar.

Pensando ter visto coisas, Pedro voltou ao sofá. Acabado o futebol que assistia, foi à cozinha pegar uma cerveja e não acreditou no que viu: um jacaré de papo amarelo de boca aberta bem ao lado da esposa.

– Meu Deus do céu! Malu, sai daí!! Tem um jacaré bem do seu lado!
– Que jacaré, Pedro? Não to vendo nada!
– Aí do seu lado direito!!
– Pedro, não tem nada do meu lado. Você tá me assustando…

Pedro ficou sem saber o que fazer com a situação: a esposa olhava na direção do jacaré, mas nada enxergava. Somente ele conseguia ver o bicho de quase 3 metros de comprimento que lhe encarava com a boca aberta.

– Estou alucinando? – pensou.

Sem entender direito, Pedro saiu da cozinha e foi ao sofá tentar distrair-se com a tv. Não estava com sono, não tomava medicações fortes e nem tinha enchido a cara: de onde havia tirado a idéia de um jacaré na cozinha? Não demorou muito para o dito cujo apontar na porta, mas dessa vez de boca fechada. O bicho rastejou lentamente pelo piso laminado, depois pelo tapete felpudo de poliéster, parando paralelamente em frente ao sofá e deitando-se em seguida. Pedro não estava acreditando no que estava acontecendo: um jacaré em comprimento maior que seu sofá estava deitado sobre seus pés, enquanto sua esposa terminava de preparar uma macarronada.

Nos dia seguinte, Pedro chamou os amigos para tirar a dúvida, mas nenhum deles viu nada. Os amigos tiravam sarro de Pedro enquanto o jacaré os observava, estático.

O bicho não sumiu mais e com o tempo, Pedro acabou acostumando-se com a presença do réptil em casa. Deu-lhe até um nome: Alu. O bicho não era  agressivo e, olhando de perto era até simpático, apesar dos dentes projetados para fora da boca. Diferente de alucinações, Alu tinha tudo de real: fazia suas necessidades pelo quintal, pulava na piscina da casa e vez em quando tomava sol pelo jardim com a boca aberta enquanto um pássaro-palito limpava seus dentes. Depois do almoço era costume fugir para comer alguns peixes em um lago à três quarteirões dali, voltando sempre lá pelas 19h – Alu tinha um certo apreço pela novela das sete.

Por não enxergar o peculiar animal de estimação do marido, Malu começou a se preocupar. Teve por idéia comprar um cachorro de estimação; talvez com um animal de verdade o marido esquecesse essa paranóia de jacaré. Então, para fazer uma surpresa ao marido, apareceu com um pastor alemão em casa, para presenteá-lo quando voltasse do trabalho.

Porém, quando Pedro chegou, encontrou Malu chorando e Alu mastigando algo. Lágrimas do crocodilo caíam no chão.

 

 

 

 

 

Nação em Parafuso

Pela primeira vez na história, um robô será candidato à Presidência do Brasil.

E por que não? Já existem robôs em todas as camadas das empresas e da sociedade; então porque não criar um para a função mais estressante e importante de um país?

Foi o que um grupo de estudantes de Engenharia Mecânica da Unicamp fez. Depois de 3 anos de desenvolvimento secreto, os estudantes anunciaram o robô ao público em uma conferência de tecnologia, onde foi revelado seu nome e próposito:
Bonifácio. Este será o primeiro robô candidato à Presidência da República do Brasil. Assim como foi com a Urna Eletrônica, temos orgulho em dizer que o país é pioneiro mais uma vez na tecnologia à favor da democracia“.

A notícia correu o mundo. A desconfiança sobre um possível presidente robô virou assunto das trending topics. Não se sabia como, mas o peculiar candidato realmente fora homologado de verdade como candidato nas eleições presidenciais. Mas ninguém sabia ainda como ele era.

Não demorou muito para o tal robô surgir em talk shows, entrevistas, programas de rádio. O tal Bonifácio era até simpático. Era um robô com aparência totalmente humana, que não escondia o fato de ser robotizado. Tinha nome de pessoa mais velha, e isso trazia uma certa credibilidade ao público. Tinha perto de 1,80 e tinha um corpo (ou seria um sistema?) atlético. Aparentava alguém próximo aos 50. Falava 5 idiomas. Tinha em seu banco de dados conteúdo de 4 doutorados nas áreas de saúde, economia, direito e tecnologia. O candidato perfeito.

A característica que mais encantou as pessoas em Boni (o chamemos assim a partir de agora), era sua completa ironia em suas respostas de duplo sentido:

Aparentemente tenho mais parafusos que o senhor –  disse em um debate numa famosa rádio do país.
Se não me falha a memória, aliás, ela nunca falha… – disse em um fórum.
Pra um ser humano, o senhor é mais frio até do que eu; – disse para um certo candidato com um passado militar.
Por motivos óbvios, não há maior interessado do que eu em facilitar a vinda do carro elétrico para o Brasil; – disse enquanto piscava sorrindo.
Não irei me tornar mais uma peça de uma obsoleta máquina pública – disse em uma propaganda política.

Porém, certas atitudes de Bonifácio traziam desconfiança do público. Boni não fora programado para beijar crianças no colo. “O que faço agora?”, perguntou a um assessor durante um comício, deixando uma má impressão. Boni também tinha um excêntrico pigarro (poucos sabiam, mas era um ruído comum de seu funcionamento) e um vício ilógico: um cigarro elétrico que não largava de jeito algum.

Apesar de tudo, as pessoas se identificaram com Bonifácio e sua vitória era dada como certa no país.

Até que algumas semanas antes da eleição, a Polícia Federal invadiu a casa do presidenciável. Prenderam-no em pleno flagrante abraçado com duas urnas eletrônicas em sua cama.

Com sua candidatura cassada, Boni foi eliminado das eleições. O Brasil acabou perdendo seu maior potencial presidente da nação simplesmente por ele ter se apaixonado pelas urnas.  Com uma tornozeleira eletrônica em sua fíbula de titânio, assistiu à apuração dos votos no dia de eleição, cabisbaixo. E quando viu que as urnas eletrônicas ainda continuavam a ser utilizadas nesta eleição, entrou em parafuso.

A religião entre quatro linhas

Seu José aprendeu com o pai a ser religioso desde menino. Iam ao templo todo fim de semana (e vez em quando até às quartas ou quintas). A mãe não fazia lá muita questão de acompanhá-los; mas religiosos, pai e filho não eram de faltar às celebrações.

A religião de Seu José e seu pai não tinha nenhum Cristo ou um quadro da Santa Ceia na parede. Na verdade, naquela casa os apóstolos eram outros; ao invés de doze eram onze e metade estava agachada e a outra metade estava em pé em uma foto na entrada da sala. Sua religião estava em todos os bares, almoços de fim de semana, televisões, rádios am e happy hours: sua religião era o futebol.

Como moravam perto do “templo”, iam às celebrações religiosamente. No grupo de fiéis, seu José aprendeu a entoar todos os cânticos do Quixeramobim Esporte Clube. Aprendeu a xingar juízes e bandeirinhas tal como fossem os soldados que pregaram Cristo na cruz. Resultado: cresceu como um fiel fervoroso. Assim como em missas e cultos, dia e horário de jogo era coisa sagrada. Para Seu José, a palavra “gol” tinha o mesmo significado de “amém”.

O homem era impossível; até briga já arrumou no trabalho por futebol. Certa vez bateu boca com um gerente que, sabendo da derrota do time de seu colaborador e sabendo do fanatismo do mesmo, tirou sarro do glorioso atacante de seu time, Jesus. Não deu outra, Seu José pediu as contas. “Não trabalho com gentinha do time adversário, Lourdes. Falou mal de Jesus, eu não aguento”, disse à esposa, enquanto ela não acreditava no que ouvia.

Em dia de jogo, Dona Lourdes sempre rezava (não para o Jesus centro-avante, mas para Deus mesmo) pedindo pela vitória do time de coração do marido. E a explicação era simples: com vitória do Quixa, o homem tornava-se faceiro, brincalhão. Dava de assar um grande churrasco para comemorar a vitória. Agradava a esposa, levava a família para passear; até o cachorro Seu José dava de acariciar.

Porém nas vezes em que as ferrenhas orações de Dona Lourdes de nada adiantavam e o time perdia, Seu José tornava-se murcho, introspectivo. Ficava de poucas palavras, chutava o cachorro, dormia cedo. Se seu time era desclassificado, era batata: vinha gripe forte por aí.

Até que em um dia de clássico e final de campeonato cearense, Ritinha, a filha de Seu José, surgiu com o então namorado – que tramava pedir a mão da moça em casamento. Ligeiro e já ciente da fama do futuro sogro, o rapaz esperou o jogo acabar para fazer o pedido durante o jantar.

“Mas que notícia boa; é claro que dou a mão da Ritinha pra você, rapaz. Tão abençoado em nome do Quixeramobim Esporte Clube. Vamos marcar um churrasco pra comemorar, genro”. Dona Lourdes não soube dizer se o marido estava mais feliz pela notícia da filha ou por seu time ter ganhado o campeonato cearense momentos atrás. De goleada inclusive. Achou melhor não perguntar. Tirou os pratos da mesa e observou Seu José fazendo carinho na barriga do cachorro, que abanava o rabo, porém desconfiadíssimo.

Tique-taque

Um homem chegou no supermercado da região e entrou com uma sacola. O fiscal do mercado o viu, solicitou-lhe que a guardasse no guarda-volumes e deu-lhe uma chave de número “30”. O homem sorriu, guardou-a no armário de madeira e seguiu ao mercado.

Ninguém percebeu que o tal homem comprou suas coisas e foi embora sem a tal sacola. De certo, esqueceu.

Passaram-se um dia, dois e ninguém percebeu nada. Até que no terceiro dia, um estranho barulho de tique-taque parecia vir de dentro dos armários. O fiscal averiguou: era o armário de número 30. Tentou abri-lo, mas estava trancado. A chave sumira: alguém a levou mas o fiscal não lembrava exatamente quem. Então mandou chamar o Chico – chaveiro já conhecido da administração – pra dar uma olhada.

Tic-tac.

– Ih Chico, que será que é isso?
– Pelo barulho boa coisa não é não, ainda mais trancado assim.
– Puta que o pariu, só falta ser bomba!

Tic-tac.

Os dois deram um pulo pra trás e ligaram para a polícia; que recomendou que ligassem para os bombeiros, que não acreditaram muito na ameaça de bomba. Mas só pra garantir, os bombeiros acabaram indo ao supermercado depois de umas horas.

Tic-tac.

– Senhores, é melhor solicitarmos a averiguação do artefato pelo Esquadrão Anti Bombas. – disse o bombeiro ao ouvir o sonoro tique-taque.

Tic-tac.

Nesse meio tempo, anoiteceu e o supermercado foi interditado. No estacionamento, surgiram centenas de curiosos – inclusive a televisão local – que aguardavam mais informações sobre a tal bomba. Alguns contavam com a sorte de filmar com o celular uma possível explosão para compartilhar nas redes sociais.

Tic-tac.

– Dizem que foi um terrorista que está na cidade – disse um transeunte a um motoqueiro.
– É verdade, eu vi o cara, ele tinha barba grande e um coque. – disse alguém sendo entrevistado.
– Devem ser esses reaças de ultimamente – disse uma senhora vestida de azul.

Tic-tac.

Os bombeiros e policiais pediram para que as pessoas saíssem do estacionamento; o esquadrão antibombas iria entrar no supermercado para avaliar e desarmar a possível bomba.

Tic-tac.

Os jornais da noite transmitiam ao vivo em rede nacional a entrada do esquadrão. Todos andando em cadência, com passos lentos e calculados até chegarem ao armário de número 30. O Brasil inteiro assistia aflito; as pessoas ouviam de seus televisores o barulho do tique-taque. Será que realmente haveria uma bomba ali, em um supermercado de uma plena cidade do interior?

Tic-tac.

Até que um dos integrantes do esquadrão tirou um pé de cabra de uma mochila e o encaixou na porta do armário. Fez uma alavanca para o lado contrário para ceder a porta, que na primeira vez não cedeu. Porém na segunda…

Ouve-se um estrondo. Uma explosão. Fogos de artifício e confetes no céu. Um telão e caixas de som gigantes surgem no meio do estacionamento do supermercado.

Está aberta a Explosão de Ofertas em nosso aniversário de 30 anos com preços bombásticos pra vocês!

 

 

 

 

Justiça nas pequenas incompreensões

Um senhor idoso vai à lotérica. São 8h da manhã e ele é um dos primeiros da fila. Enquanto espera na outra fila, escuta algum gracejo como “velho tem o dia inteiro pra vir na lotérica mas vem cedo pra atrapalhar”. Ele olha pra trás e vê um marombeiro sorrir sem jeito.

E este marombeiro, depois de pagar as contas, vai pra sua academia. Senta-se atrás do balcão, toma seu whey e seu celular vibra. Olha o WhatsApp e dá um soco na mesa – puto da vida – quando vê que um número desconhecido lhe mandou fotos de fezes, com mosquito e tudo. “Desgraça”, fala enquanto tenta ligar no tal número para tirar satisfação. Ouve uma voz: “Este número não está disponível para realizar chamadas”.

Não muito longe dali, o mesmo senhor agora está no supermercado. Pega algumas frutas, potes de conserva, leite, papel higiênico, condimentos e vai ao caixa. “CPF na nota?” – a atendente de caixa pergunta com descaso equino. “Não, obrigado”. A atendente pega os produtos, os coloca na sacola, os joga de lado e diz “próximo”.

Esta mesma atendente, algumas horas depois vai almoçar. Após a refeição, vai ao pátio do supermercado, passa a mão na testa empapuçada de suor e acende um cigarro. Seria uma boa matar o tempo no celular, pensa. Quando entra no WhatsApp, diz “puta que o pariu” ao ver uma foto de fezes em forma de C, e começa a tossir com a fumaça que acabara de engolir. Uma amiga ao lado, temendo o pior, lhe dá uns tapas nas costas (tapas que acabaram alguns indo na cabeça, pois a jovem não parava quieta ao tossir).

Depois de pouco tempo, muita gente na cidade já tinha sido vítima das fotos de fezes. No perfil do WhatsApp do número desconhecido, uma enigmática foto de paisagem. As vítimas eram aparentemente pessoas aleatórias: uma caixa de supermercado, um bodybuilder, logo foi a vez de um médico, um telemarketing de banco, um vendedor de Hinode, um pastor, uma advogada, um pai de duas famílias e até mesmo um coach e uma cozinheira. Os cocôs eram democráticos; não escolhiam profissão, religião, idade, sexo ou classe social. E eram politicamente corretos, pois nunca foram enviados para crianças ou adolescentes.

Até que um dia, o mesmo senhor desfruta de um belo almoço na churrascaria. Termina e, satisfeito vai ao caixa passar seu cartão de débito. Mas por herança da idade, acaba esquecendo sua senha. Uma fila grande começa a surgir atrás dele; alguns resmungam, outros falam mal de idosos, até que enfim ele se lembra e passa seu cartão com sucesso. Ele sai silenciosamente.

Mal sabem que quando chegarem em suas respectivas casas, esses mal educados, um por um, vão encontrar um pote em conserva em seus quintais. Com merda dentro.

Desta vez, a justiça agiu como antigamente – independente de tecnologias. Estes pobres espíritos de porco tiveram o azar dos créditos de celular do nosso herói terem acabado. E a justiça, amigos, não é pré-paga.

Foi hoje

Segundo li em algum lugar, o verdadeiro ofício é aquele em que você está sempre com uma sensação de débito com ele.  Desde pequeno tenho isso comigo e nunca levei esta sensação a sério. Resultado? Mentalmente me pergunto todos os dias: “será hoje?”.

Acabei descobrindo que escrever não é uma escolha; é pagar o fiado do bar todo mês só pelo prazer de beber sem pagar no mês seguinte.

Textos? Não há saída: devo lê-los, criá-los.

Portanto, sim, foi hoje que comecei a escrever por aqui.
Seja bem-vindo(a) às minhas crônicas!