Tique-taque

Um homem chegou no supermercado da região e logo foi entrando com sua sacola. O fiscal do mercado o viu, deu-lhe uma chave com o número 30 e solicitou que guardasse sua sacola no guarda-volumes. O homem sorriu e guardou sua sacola no pequeno armário de madeira. Fechou-o e entrou no mercado.

O que ninguém percebeu é que o tal homem comprou suas coisas e saiu do mercado sem pegar sua sacola dentro do guarda-volumes de volta. De certo, esqueceu.

Passaram-se um dia, dois e ninguém percebeu nada. Até que no terceiro dia, o fiscal ouviu um alto barulho de tique-taque que parecia vir de dentro dos armários. Era o armário de número 30. Tentou abri-lo mas estava trancado. Mandou chamar o Chico, chaveiro já conhecido da administração, pra dar uma olhada.

Tic-tac.

– Ih Chico, será que é bomba?
– Pelo barulho boa coisa não é não, ainda mais trancado assim.
– Puta que o pariu, era só o que faltava!

Tic-tac.

Os dois deram um pulo pra trás e ligaram para a polícia, que recomendou que ligassem para os bombeiros, que não acreditaram muito na ameaça de bomba, porém acabaram indo ao supermercado depois de umas três horas, só pra garantir.

Tic-tac.

– Senhores, é melhor solicitarmos a averiguação do artefato pelo Esquadrão Anti Bombas. – disse o bombeiro ao ouvir o tique-taque.

Tic-tac.

Nesse meio tempo, anoiteceu e o supermercado foi interditado. No estacionamento, surgiram centenas de curiosos – inclusive a televisão local – que aguardavam mais informações sobre a tal bomba. Alguns contavam com a sorte de filmar com o celular uma possível explosão para compartilhar nas redes sociais.

Tic-tac.

– Dizem que foi um terrorista que está na cidade – disse um transeunte a um motoqueiro.
– É verdade, eu vi o cara, ele tinha barba grande e um coque. – disse alguém sendo entrevistado.
– Devem ser esses manifestantes de ultimamente – disse uma senhora vestida de azul.

Tic-tac.

Os bombeiros e policiais pediram para que as pessoas saíssem do estacionamento; o esquadrão antibombas iria entrar no supermercado para avaliar e desarmar a possível bomba.

Tic-tac.

Os jornais da noite transmitiam ao vivo em rede nacional a entrada do esquadrão. Todos andando em cadência, com passos lentos e calculados até chegarem ao armário de número 30. O Brasil inteiro assistia aflito; as pessoas ouviam de seus televisores o barulho do tique-taque. Será que realmente haveria uma bomba ali, em um supermercado de uma plena cidade do interior?

Tic-tac.

Até que um dos integrantes do esquadrão tirou um pé de cabra de uma mochila e o encaixou na porta do armário. Fez uma alavanca para o lado contrário para ceder a porta, que na primeira vez não cedeu. Porém na segunda…

Ouve-se um estrondo. Uma explosão. Fogos de artifício e confetes no céu. Um telão e caixas de som gigantes surgem no meio do estacionamento do supermercado.

– É a Explosão de Ofertas em nosso aniversário de 30 anos com preços bombásticos pra vocês!

 

 

 

 

Uma crônica sem direção

Então surgiu um boato nas ruas, redes sociais e grupos de WhatsApp de que o Detran iria tirar a obrigatoriedade da utilização da seta nas ruas, avenidas e rodovias de todo o país. Será? Parecia mentira, mas o boato estava começando a tomar proporções reais: surgiram burburinhos nos principais jornais de todo o país. A justificativa era: já que ninguém respeitava a lei, o governo planejava abolir de vez a infração. Esta então tornaria-se a própria lei: seria proibido dar seta.

Até que alguns dias depois, no meio do grande clássico entre XV de Piracicaba e Guarani veio a confirmação: o jogo foi interrompido para uma declaração oficial do excelentíssimo presidente da república: “Boa noite brasileiros e brasileiras. Devido à tantas polêmicas, decidimos, hã, eliminar… do Código Brasileiro de Trânsito o item de sinalização com seta antes de qualquer realização de ultrapassagens, trocas de faixa, conversões e retornos. Portanto, faz-se aqui… proibido o uso de seta em toda e qualquer circunstância dentro de ruas, avenidas e rodovias dentro de território brasileiro. Acreditamos que… tal medida será um grande benefício para os motoristas do país, visto que, todos serão impelidos a se conscientizarem para um melhor convívio entre si e para trafegarem em, rmmm, distinta harmonia. Obrigado.

Pronto: os espíritos de porco que já não utilizavam a seta, tornariam-se porta vozes de uma geração de barbeiros respaldados pela lei. Entrar em uma faixa ou rua perpendicular agora seria apenas virar e pronto. Dane-se quem estava atrás ou o pedestre que fosse atravessar uma rua; eles que esperassem e mantivessem distância.

Com a nova lei (ou a falta dela) em vigor, aqueles antes bons motoristas – que davam seta religiosamente – , foram marginalizados. Se davam seta antes de virar, eram xingados, acuados. “Vai dar seta na puta que o pariu“, gritavam alguns novos cidadãos corretos. Se dessem seta pra ultrapassar nas rodovias, levavam uma buzinada na orelha pra aprenderem a ficar espertos.

Estranhamente as auto-escolas se adaptaram muito rapidamente à nova regra. Também foi um bom período para a economia no mercado de funilaria: segundo uma pesquisa, o setor aumentou seus lucros em 832,7% em 6 meses de exclusão da lei da seta. O mercado de seguros desapareceu do país.

Com a contraditória exclusão da lei, as montadoras no Brasil começaram a fabricar os carros e motos sem seta mesmo; já que a lei proibia o uso, então por que fabricar veículos com seta? Donos de carros e motos antigos, foram obrigados a retirarem a seta de seus veículos, estando passíveis de multa pesada caso não obedecessem.

Alguns quiseram burlar o sistema e começaram a usar o pisca-alerta, mas não deu outra: alguns foram denunciados e outros tiveram até faróis apedrejados.

E nas ruas, graves consequências: aumento de acidentes, mais pedestres e ciclistas atropelados, veículos avariados. O feitiço virou contra o feiticeiro: aqueles pobres espíritos de porco que nunca haviam usado uma seta, acabaram provando de seu próprio veneno. Com a situação insustentável, resolveram a situação com o peculiar jeitinho brasileiro: botar a mão pra fora do carro pra sinalizar a direção. Mão apontada para a esquerda era esquerda, mão apontada por cima do carro, era direita. Pronto.

A partir de então muitos motoristas começaram a usar o truque. O caos do trânsito começava a dar sinais de fraqueza.

Até que, alguns dias depois, no meio do intervalo da novela, surge nosso presidente, em um novo comunicado. “Boa noite meus amigos. Temos relatos de autoridades de trânsito de todo o país informando que as pessoas estão utilizando as mãos como sinalização de direção no trânsito. Vale lembrar que tal atitude é prevista nas leis de trânsito e é ilegal. Portanto, foi deliberado que para coibir tal prática foi imposto um aumento no valor da multa, além do cancelamento da carteira de motorista do infrator. Não há porque fazermos vista grossa com estas pequenas transgressões no trânsito que visam oprimir a boa circulação de veículos nas ruas e estradas de todo o país. Não importa para que lado o país vai, se é pra esquerda ou direita, contanto que siga pra frente . Obrigado e, aproveitem a semana“.

Justiça nas pequenas incompreensões

Num dia destes, um senhor idoso vai à lotérica. São 8h da manhã e ele é um dos primeiros da fila. Enquanto espera na outra fila, escuta algum gracejo como “velho tem o dia inteiro pra vir na lotérica mas vem cedo pra atrapalhar”. Ele olha pra trás e vê um marombeiro sorrir sem jeito.

E este marombeiro, depois de pagar as contas, vai pra sua academia. Senta-se atrás do balcão, toma seu whey e seu celular vibra. Olha o WhatsApp e dá um soco na mesa – puto da vida – quando vê que um número desconhecido lhe mandou fotos de fezes, com mosquito e tudo. “Desgraça”, fala enquanto tenta ligar no tal número para tirar satisfação. Ouve uma voz: “Este número não está disponível para realizar chamadas”.

Não muito longe dali, o mesmo senhor agora está no supermercado. Pega algumas frutas, potes de conserva, leite, papel higiênico, condimentos e vai ao caixa. “CPF na nota?” – a atendente de caixa pergunta com descaso equino. “Não, obrigado”. A atendente pega os produtos, os coloca na sacola, os joga de lado e diz “próximo”.

Esta mesma atendente, algumas horas depois vai almoçar. Após a refeição, vai ao pátio do supermercado, passa a mão na testa empapuçada de suor e acende um cigarro. Seria uma boa matar o tempo no celular, pensa. Quando entra no WhatsApp, diz “puta que o pariu” ao ver uma foto de fezes em forma de C, e começa a tossir com a fumaça que acabara de engolir. Uma amiga ao lado, temendo o pior, lhe dá uns tapas nas costas (tapas que acabaram alguns indo na cabeça, pois a jovem não parava quieta ao tossir).

Depois de pouco tempo, muita gente na cidade já tinha sido vítima das fotos de fezes. No perfil do WhatsApp do número desconhecido, uma enigmática foto de paisagem. As vítimas eram aparentemente pessoas aleatórias: uma caixa de supermercado, um bodybuilder, logo foi a vez de um médico, um telemarketing de banco, um vendedor de Hinode, um pastor, uma advogada, um pai de duas famílias e até mesmo um coach e uma cozinheira. Os cocôs eram democráticos; não escolhiam profissão, religião, idade, sexo ou classe social. E eram politicamente corretos, pois nunca foram enviados para crianças ou adolescentes.

Até que um dia, o mesmo senhor desfruta de um belo almoço na churrascaria. Termina e, satisfeito vai ao caixa passar seu cartão de débito. Mas por herança da idade, acaba esquecendo sua senha. Uma fila grande começa a surgir atrás dele; alguns resmungam, outros falam mal de idosos, até que enfim ele se lembra e passa seu cartão com sucesso. Ele sai silenciosamente.

Mal sabem que quando chegarem em suas respectivas casas, esses mal educados, um por um, vão encontrar um pote em conserva em seus quintais. Com merda dentro.

Desta vez, a justiça agiu como antigamente – independente de tecnologias. Estes pobres espíritos de porco tiveram o azar dos créditos de celular do nosso herói terem acabado. E a justiça, amigos, não é pré-paga.

Foi hoje

Segundo li em algum lugar, o verdadeiro ofício é aquele em que você está sempre com uma sensação de débito com ele.  Desde pequeno tenho isso comigo e nunca levei esta sensação a sério. Resultado? Mentalmente me pergunto todos os dias: “será hoje?”.

Acabei descobrindo que escrever não é uma escolha; é pagar o fiado do bar todo mês só pelo prazer de beber sem pagar no mês seguinte.

Textos? Não há saída: devo lê-los, criá-los.

Portanto, sim, foi hoje.